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Efeitos Anticolinérgicos no Livro Reações Adversas a Medicamentos na Velhice

Os chamados efeitos anticolinérgicos são propriedades extremamente comuns. Grande parte dos medicamentos prescritos ou vendidos sem prescrição apresentam essas propriedades, embora, na maioria dos casos, elas não sejam sequer reconhecidas pelos usuários e nem mesmo pelos profissionais de saúde. O problema é que os efeitos anticolinérgicos estão associados, especialmente em idosos, ao risco de declínio funcional, quedas, confusão, delírio, demência e hospitalização.

Para tornar a situação ainda mais preocupante, dado o uso disseminado de medicamentos anticolinérgicos, não é incomum a utilização de mais de um fármaco com propriedades anticolinérgicas pelo mesmo indivíduo. O efeito cumulativo resultante dessa combinação, que aumenta o risco de eventos adversos e desfechos negativos, é intitulado carga anticolinérgica (anticholinergic burden).

O livro “Reações Adversas a Medicamentos na Velhice – Efeitos da Carga Anticolinérgica” trata da relação entre alterações cognitivas e uso de fármacos com atividade anticolinérgica, chamando a atenção para a necessidade da revisão da farmacoterapia de todo paciente que apresente essas alterações, conduta essencial diante da crescente prevalência de déficit cognitivo em idosos. É fundamental evitar assumir que o declínio cognitivo é demência até que todos as outras possíveis causas tenham sido descartadas.

Apresentação do livro

O primeiro requisito para o uso de um medicamento é – digo, deveria ser – a necessidade. Entretanto, o uso excessivo, indiscriminado e, muitas vezes, irracional de medicamentos mostra que a avaliação dessa necessidade tem sido negligenciada.

Esse uso banal ocorre em todas as faixas etárias. Porém, no idoso, que frequentemente possui doenças crônicas, a polimedicação é hoje uma situação comum. E é justamente essa percepção de “situação comum”, “normal”, que nos coloca em risco de resiliência diante de um cenário que não é fruto da doença nem da velhice, mas que é resultado de fatores culturais e sociais, como a medicalização do cuidado e da falta de capacitação e de comprometimento dos profissionais envolvidos na prescrição, orientação e dispensação de medicamentos. Afinal, não apenas o prescritor, mas qualquer profissional envolvido nesse processo pode, mesmo junto às equipes, zelar pelo uso racional de tratamentos farmacológicos.

Medicalização da velhice

São muitos os aspectos preocupantes por trás da polimedicação e da medicalização da velhice. Primeiramente, certas queixas e desconfortos podem ser gerados por condições como, por exemplo, carências nutricionais ou dietas inadequadas e vida sedentária. Ou seja, certos sinais e sintomas podem ser resolvidos com mudanças no estilo de vida, sem a necessidade de tratamento farmacológico. Sim, muitos problemas de saúde podem ser tratados com recursos não farmacológicos. Ademais, medicamentos podem produzir efeitos colaterais que não raro são confundidos com novos sintomas, gerando outras prescrições.

É, portanto, absolutamente necessário descartar antes de tudo a possiblidade de que o sintoma é um efeito adverso a algum medicamento em uso, seja ele prescrito ou automedicação. Deve-se considerar ainda que a associação de medicamentos pode gerar interações medicamentosas, o que eleva o risco para reações adversas. E no idoso, que costuma consultar médicos de especialidades diferentes que não se comunicam a respeito da farmacoterapia do paciente – que ainda por vezes se automedica –, as chances de interação e de associação irracional e excessiva de medicamentos é muito elevada.

Temos que reconsiderar, rever nossas práticas. Voltar alguns passos e começar de novo, a partir da necessidade. Reavaliar individualmente, em cada paciente, quais medicamentos em uso são necessários e se as doses são as mínimas necessárias para produzir o efeito terapêutico. E, por fim, precisamos investir mais em promoção de saúde, estilos de vida mais saudáveis e pesquisas sobre recursos não farmacológicos. Não devemos de maneira alguma entender a medicalização e a polimedicação como resultados dos avanços da medicina ou da tecnologia farmacêutica e, menos ainda, enxergá-las como condições normais da velhice. A reversão urgente desse quadro de uso banal de medicamentos vai nos garantir um futuro melhor.

Efeitos anticolinérgicos e carga

O tema discutido neste livro é parte desse debate. São abordados sobretudo os medicamentos com efeitos anticolinérgicos, que especialmente em idosos, podem causar reações adversas – distúrbios visuais, declínio funcional e cognitivo, quedas, confusão, retenção urinária, constipação – que podem ser facilmente confundidas com sintomas de doenças. O efeito cumulativo resultante do uso associado de fármacos anticolinérgicos (carga anticolinérgica) eleva o risco de eventos adversos e desfechos negativos. Muitos fármacos deste grupo são isentos de prescrição ou vendidos sem a exigência de receita médica, o que facilita seu uso por automedicação.

Embora os fármacos anticolinérgicos sejam considerados potencialmente inapropriados para idosos, isto é, constituam parte de um grupo de agentes a serem evitados nessa faixa etária, seu uso nesses indivíduos é comum e banal. Minhas atividades de ensino e pesquisa sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos e problemas relacionados a medicamentos junto ao curso de gerontologia da Universidade de São Paulo e na Universidade Aberta à Terceira Idade, bem como o contato com casos clínicos em Unidades Básicas de Saúde, ambulatórios e instituições de longa permanência para idosos, resultaram no material reunido neste livro.

O conteúdo reúne especialmente evidências sobre a relação entre alterações cognitivas e uso de fármacos com atividade anticolinérgica, achados que chamam a atenção para a necessidade da revisão da farmacoterapia de todo paciente que apresente essas alterações, conduta essencial diante da crescente prevalência de déficit cognitivo em idosos. Os achados aqui arrolados chamam a atenção para a importância de evitar assumir que o declínio cognitivo é demência até que todos as outras possíveis causas tenham sido descartadas.