Vida

Moradora reclama de som repentino no andar de cima que a acorda todas as noites e vizinha descobre que o culpado era quem menos se esperava

Moradora de um condomínio de São Paulo passou a despertar assustada com um forte ruído que parecia vir do quarto do apartamento de cima. Os vizinhos também dormiam naquele horário e não faziam ideia da causa — até que uma investigação noturna resolveu o mistério.

Todas as noites, já bem tarde, um barulho repentino fazia uma moradora de um condomínio residencial de São Paulo despertar assustada.

Para ela, não havia muita dúvida sobre a origem. O som parecia vir exatamente do cômodo acima de seu quarto: a suíte do apartamento do andar de cima.

Era um ruído forte e súbito, semelhante ao de uma porta sendo fechada com força.

Depois de algumas noites assim, ela procurou o síndico do prédio.

O vizinho de cima recebeu a reclamação e ficou surpreso. E também bastante confuso.

Naquele horário, naquele quarto, ele e a esposa estavam dormindo. Ele não conseguia identificar nada que pudesse produzir um barulho daquele tipo dentro da suíte.

Ele respondeu ao síndico que não encontrava uma explicação e que, provavelmente, o som deveria ter outra origem.

Mas a vizinha continuava ouvindo.

A suspeita caiu sobre a porta da sacada

Dias depois, a esposa do vizinho encontrou a moradora que havia feito a reclamação e perguntou se o problema tinha parado.

Não tinha.

A mulher contou que continuava despertando assustada e que, depois disso, tinha dificuldade para voltar a dormir. Segundo ela, aquilo já estava prejudicando seu sono e lhe causando insônia.

Agora, porém, tinha uma hipótese mais específica.

Acreditava que o ruído fosse provocado pela porta da sacada da suíte, do tipo porta balcão — a porta envidraçada que dá acesso à varanda — sendo fechada com força durante a noite.

A explicação parecia fazer sentido.

Até a vizinha de cima contar uma coisa que praticamente eliminava essa possibilidade.

A sacada havia sido envidraçada havia bastante tempo e também recebera persianas. Desde então, o casal praticamente nunca mais movimentava a porta balcão.

Ela permanecia aberta, independentemente do clima.

Ninguém a estava fechando de madrugada.

Agora, as duas estavam confusas.

Agora havia duas pessoas perdendo o sono

A conversa terminou, mas ficou na cabeça da moradora do apartamento de cima.

Até aquele momento, o tal barulho nunca havia chamado sua atenção. Ela e o marido dormiam normalmente.

Depois de saber que a vizinha de baixo estava sendo acordada noite após noite, porém, ela passou a observar com atenção o que acontecia dentro da suíte.

Começou a perceber movimentos e sons que antes faziam parte da rotina da casa e simplesmente passavam despercebidos.

Antes havia uma moradora com dificuldade para dormir.

Agora havia duas.

Mas o esforço acabou sendo útil.

Porque, numa dessas noites, ela finalmente percebeu o que estava acontecendo.

O responsável estava dentro do apartamento

Não era ela.

Também não era o marido.

Era o gato da família.

Todas as noites, diante da porta fechada da suíte, ele repetia uma operação que provavelmente já fazia havia muito tempo.

Saltava em direção à maçaneta, conseguia pressioná-la para baixo e caía novamente no chão.

Porta de madeira com maçaneta horizontal de alavanca
A porta da discórdia. Esta é a porta real da história. A maçaneta de alavanca fica a cerca de 1,04 metro do piso. O formato de alavanca permitia que o gato pressionasse a maçaneta para baixo durante o salto.

A maçaneta fica a cerca de 1,04 metro do piso. Portanto, o gato precisa saltar e esticar o corpo para alcançá-la.

E existe um detalhe importante: trata-se de uma maçaneta de alavanca, horizontal.

Ao saltar sobre ela, o gato consegue — bruscamente e de forma bem barulhenta — abaixar a alavanca e liberar a porta.

Depois de voltar ao chão, só precisa empurrá-la.

E entrar no quarto.

A vizinha estava certa sobre o barulho

De repente, a descrição feita pela moradora do andar de baixo passou a fazer sentido.

O ruído brusco realmente acontecia na região da suíte.

Era repentino e alto o suficiente para ser ouvido durante o silêncio da madrugada naquela rua tranquila.

E podia perfeitamente ser confundido com uma porta sendo movimentada com força.

Ela não estava imaginando o barulho.

Apenas tinha atribuído o som à porta errada.

O casal do apartamento de cima não acordava porque aquele movimento havia se tornado parte tão habitual da casa que simplesmente deixara de chamar atenção.

Pelo menos até a reclamação.

Depois de descobrir a origem, a esposa também passou a ouvir o barulho.

E então surgiu outro problema: como convencer um gato a parar de fazer algo que ele havia decidido fazer todas as noites?

A solução foi deixar o gato vencer

Gato tigrado deitado em um vaso perto de uma janela
O verdadeiro responsável pelo barulho noturno: este é o gato da história.

Num primeiro momento, a moradora tentou impedir que o gato pulasse na maçaneta.

Não funcionou muito bem.

A solução acabou sendo bem mais simples.

A porta passou a ficar aberta.

Com livre acesso à suíte, o gato deixou de precisar saltar na maçaneta. O ritual noturno acabou — e, com ele, o misterioso barulho que atravessava o piso e acordava a vizinha.

No fim, ninguém estava fazendo barulho de propósito, ninguém estava mentindo e ninguém estava ouvindo coisas que não existiam.

Havia apenas um gato decidido a circular pela própria casa.

E, para quem convive com um deles, talvez o desfecho seja a parte menos surpreendente da história: portas fechadas costumam ser encaradas menos como uma regra e mais como um problema a ser resolvido.


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Caroline Borja, phD, divulgadora científica

Caroline Borja é escritora, divulgadora científica e pesquisadora. Farmacêutica, mestre e doutora em Farmacologia pela UNICAMP e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP, dedicou 25 anos à carreira acadêmica, sendo 13 anos na UNICAMP e 12 anos como docente da Universidade de São Paulo (USP) — onde ingressou por concurso —, em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Na USP, lecionou temas relacionados ao envelhecimento humano e à saúde.

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