Vida

A vizinha de baixo reclamou que a vibração do celular do andar de cima a acordava às 6h. Mas será que isso é possível?

Uma reclamação aparentemente inacreditável surpreendeu os moradores de um condomínio. O vizinho desligou a vibração do celular e o que aconteceu depois tornou a história ainda mais curiosa.

A reclamação parecia inacreditável. Uma moradora de um condomínio em São Paulo dizia que não conseguia dormir até mais tarde porque, todas as manhãs, por volta das seis, ouvia a vibração do celular do vizinho do andar de cima.

O celular ficava sobre uma pequena mesa ao lado da cama. O vizinho não conseguia acreditar que alguém pudesse ouvir aquilo através do piso. Mas, mesmo contrariado, resolveu desligar a vibração.

E aconteceu uma coisa curiosa: segundo a vizinha, o barulho desapareceu.

Afinal, será que a vibração de um celular consegue atravessar o piso de um apartamento e acordar alguém no andar de baixo?

O detalhe que pode explicar o mistério está na mesinha

Quem já deixou o celular vibrando sobre uma mesa conhece aquele barulho característico: brrrr… brrrr…

Agora, coloque o mesmo aparelho sobre uma cama ou segure-o na mão. A diferença pode ser enorme.

Isso acontece porque o celular não produz apenas uma vibração que sentimos pelo tato. Quando está apoiado sobre uma superfície rígida, seu movimento pode provocar pequenos impactos repetidos, produzindo um ruído perfeitamente audível.

A fabricante de motores de vibração Precision Microdrives usa justamente o exemplo do celular sobre uma mesa para explicar esse fenômeno.

E há outro detalhe. Dependendo do material, da estabilidade e da maneira como está apoiada, a própria mesinha pode vibrar e contribuir para o barulho.

Portanto, talvez a vizinha não estivesse ouvindo apenas o celular. Ela poderia estar ouvindo o ruído produzido pelo contato do aparelho com o móvel.

Mas ainda falta responder à parte mais intrigante: como esse barulho chegaria ao apartamento de baixo?

Paredes e pisos também podem transmitir vibrações

Embora estejamos acostumados a pensar no som viajando pelo ar, ele também pode se propagar por materiais sólidos.

Em edifícios, determinadas vibrações conseguem percorrer pisos, paredes e suas conexões. Em certas condições, essas estruturas vibram e fazem o ar de outro ambiente vibrar também, produzindo um som audível.

Esse fenômeno é conhecido como transmissão de ruído estrutural.

Um estudo publicado em 2022 na revista científica Canadian Acoustics investigou justamente como vibrações se propagam entre pisos e paredes de um edifício residencial. Os pesquisadores observaram, entre outras coisas, que a posição da fonte de vibração influencia o comportamento do som transmitido pela estrutura.

Mas há uma ressalva importante: os experimentos utilizaram uma fonte de impactos, não um celular. Eles demonstram como o fenômeno funciona, mas não permitem concluir que a vibração de qualquer telefone sobre uma mesinha seria suficientemente intensa para chegar ao andar de baixo.

Isso depende do aparelho, do móvel, do piso, das características construtivas do prédio e da maneira como os elementos estão conectados.

E por que justamente às seis da manhã?

Há mais uma peça nesse quebra-cabeça: o silêncio.

Quando há pouco barulho no ambiente, sons discretos podem se destacar mais facilmente. Um zumbido que passaria despercebido durante o dia pode chamar atenção nas primeiras horas da manhã.

E estar dormindo não significa que deixamos de perceber sons.

Uma revisão científica conduzida por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia mostrou que ruídos podem provocar despertares durante o sono. Isso depende de fatores como a intensidade, as características do barulho, o ruído de fundo e a sensibilidade de cada pessoa.

Assim, um som aparentemente insignificante para um morador pode ser suficiente para incomodar outro.

É claro que isso ainda não esclarece se a vibração daquele celular realmente chegava ao apartamento inferior.

Mas ajuda a entender por que a reclamação não era tão impossível quanto parecia.

Afinal, quem tinha razão?

O detalhe mais convincente da história não veio de um equipamento de medição, mas de uma mudança bastante simples.

O vizinho desligou a vibração.

E, segundo a moradora, o barulho que a acordava desapareceu.

Essa sequência fortalece a suspeita de que havia uma relação entre o celular e o incômodo. Ainda assim, sem uma medição ou um teste controlado nos apartamentos, não é possível afirmar exatamente qual era a origem do ruído nem por onde ele se propagava.

Talvez a mesinha participasse da história. Talvez as características acústicas do prédio tivessem um papel importante. O que sabemos é que o barulho deixou de ser percebido depois que a vibração foi desativada.

No fim, a situação tem uma ironia deliciosa.

Para o dono do celular, parecia inconcebível que a vibração de um aparelho tão pequeno incomodasse alguém do outro lado do piso.

Para a vizinha de baixo, aquele barulhinho aparentemente insignificante era motivo suficiente para perder o sono.

E pensar que, enquanto um morador usava o celular para acordar às seis, o aparelho talvez estivesse funcionando como despertador involuntário da vizinha também.

Fontes consultadas

Precision Microdrives. Reducing Audible Noise in Vibration Motors. Precision Microdrives, 2021.

MAGALHAES, Max; LIBERO, H. Vibration Transmission Across Junctions of Walls and Floors in an Apartment Building – A Case Study. Canadian Acoustics, 50(2), 2022.

BASNER, Mathias; MCGUIRE, Sarah. WHO Environmental Noise Guidelines for the European Region: A Systematic Review on Environmental Noise and Effects on Sleep. International Journal of Environmental Research and Public Health, 15(3), 519, 2018.


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Caroline Borja, phD, divulgadora científica

Caroline Borja é escritora, divulgadora científica e pesquisadora. Farmacêutica, mestre e doutora em Farmacologia pela UNICAMP e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP, dedicou 25 anos à carreira acadêmica, sendo 13 anos na UNICAMP e 12 anos como docente da Universidade de São Paulo (USP) — onde ingressou por concurso —, em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Na USP, lecionou temas relacionados ao envelhecimento humano e à saúde.

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