Pessoas de meia-idade e mais velhas estão se sentindo mais jovens do que as gerações anteriores se sentiam na mesma idade, mostra estudo
Aos 70 anos, Jerry Hall não se sente com 70.
Em uma entrevista à British Vogue publicada em junho de 2026, às vésperas de completar essa idade, a modelo e atriz falou sobre envelhecimento e lembrou que sua avó, aos 70, parecia muito mais velha.
Hall não estava falando de expectativa de vida, exames médicos ou número de velas no bolo.
Estava falando de uma sensação.
A de chegar a uma idade que, durante boa parte da vida, parecia pertencer a pessoas muito mais velhas — e descobrir que, por dentro, ela não combina muito com aquilo que imaginávamos.
Talvez você conheça essa sensação.
Talvez já tenha olhado para uma fotografia de seus pais ou avós aos 50, 60 ou 70 anos e pensado:
“Eles pareciam mais velhos do que eu me sinto hoje.”
É fácil atribuir essa impressão apenas às roupas, aos penteados, às fotografias antigas ou às mudanças no estilo de vida.
Mas cientistas resolveram investigar uma pergunta mais interessante:
será que pessoas de gerações mais recentes realmente se sentem mais jovens na mesma idade?
E encontraram sinais de que sim.
A ciência resolveu medir essa sensação
Um estudo publicado em 2023 na revista Psychological Science acompanhou dados de quase 15 mil pessoas na Alemanha.
Os participantes tinham entre 40 e 85 anos quando entraram no estudo e foram acompanhados ao longo de até 24 anos.
Periodicamente, respondiam a uma pergunta muito simples:
“Que idade você sente que tem?”
Os pesquisadores então compararam pessoas de diferentes gerações quando elas estavam na mesma idade cronológica.
E apareceu um padrão.
Pessoas nascidas mais recentemente tendiam a se sentir mais jovens do que pessoas de gerações anteriores se sentiam na mesma idade.
A diferença equivalia a cerca de 2% para cada década posterior de nascimento.
Em média, a cada dez anos a mais no ano de nascimento, aparecia uma pequena diferença adicional na direção de se sentir mais jovem.
Pode parecer pouco.
Mas o interessante não é imaginar que existe uma idade subjetiva exata para cada geração.
É perceber que a experiência de ter determinada idade parece poder mudar ao longo da história.
Mas que idade é essa que sentimos ter?
Ela tem nome: idade subjetiva.
É, de maneira simples, a idade que sentimos ter.

Uma pessoa pode ter 68 anos no documento e sentir que tem 55. Outra pode ter 55 e sentir exatamente 55. Outra pode, em determinados momentos, sentir-se até mais velha do que a própria idade.
Não existe uma resposta “certa”.
E idade subjetiva não é a mesma coisa que tentar parecer jovem.
Estamos falando de uma percepção interna: quantos anos eu sinto que tenho?
Há décadas pesquisadores estudam essa diferença entre a idade cronológica e a idade sentida.
O que torna os estudos entre gerações especialmente interessantes é outra pergunta:
uma pessoa de 70 anos hoje sente a própria idade da mesma maneira que uma pessoa de 70 anos sentia décadas atrás?
Os dados alemães sugerem que não necessariamente.

E não aconteceu apenas na Alemanha
Outro grande estudo encontrou um padrão semelhante na Inglaterra.
Pesquisadores analisaram dados do English Longitudinal Study of Ageing, que acompanha adultos de meia-idade e mais velhos.
Foram mais de 35 mil observações de mais de 14 mil pessoas ao longo de aproximadamente uma década.
Em média, os participantes se sentiam mais jovens do que a idade que tinham no documento.
E, novamente, apareceu uma diferença entre gerações:
pessoas de coortes mais recentes tendiam a se sentir mais jovens na mesma idade do que pessoas nascidas antes.
Encontrar algo parecido em outra população torna a história mais interessante.
Não estamos mais diante apenas de uma curiosidade observada em um único grupo alemão.
Então nossos pais realmente se sentiam mais velhos?
Aqui é preciso tomar cuidado.
Os estudos não nos permitem olhar para uma fotografia de nossa mãe aos 60 anos e concluir:
“Ela se sentia mais velha do que eu me sinto aos 60.”
Não sabemos.
Estamos falando de médias observadas em grandes grupos de pessoas.
Há enorme variação individual.
Além disso, fotografias antigas carregam sinais visuais de época — roupas, cabelos, óculos, maquiagem, qualidade da imagem — que podem fazer alguém parecer mais velho aos nossos olhos hoje sem dizer absolutamente nada sobre a idade que essa pessoa sentia ter.
O que os estudos permitem dizer é mais interessante e mais preciso:
quando comparamos gerações em grandes grupos, pessoas nascidas mais recentemente parecem, em média, relatar uma idade subjetiva mais jovem na mesma idade cronológica.
É uma diferença populacional.
Não uma regra sobre cada família.
Nem todos os estudos encontraram a mesma mudança
Também seria tentador transformar o resultado em uma história simples:
cada geração se sente mais jovem do que a anterior.
Mas a ciência não é tão arrumada assim.
Outros estudos, em outras populações e períodos, não encontraram exatamente o mesmo padrão de mudança entre gerações.
Isso importa.
Significa que o fenômeno não deve ser tratado como uma lei universal do envelhecimento.
O país, o período histórico, as condições de vida, a maneira como a pesquisa é feita e as características das pessoas estudadas podem influenciar os resultados.
Os estudos alemão e inglês oferecem evidências importantes de uma mudança entre coortes.
Mas não encerram a pergunta.
Por que estamos nos sentindo mais jovens?
Essa talvez seja a parte mais tentadora da história.
Também é aquela em que precisamos ser mais cuidadosos.
Há várias explicações possíveis.
Pessoas de determinada idade hoje podem ter condições de saúde, educação, trabalho, independência e estilos de vida diferentes daqueles encontrados em gerações anteriores.
Também mudaram as expectativas sociais sobre aquilo que alguém de 50, 60 ou 70 anos deveria fazer, vestir, desejar ou planejar.
Talvez tenha mudado até a imagem mental que carregamos dessas idades.
No estudo alemão, parte das diferenças entre gerações estava relacionada a fatores como educação e doenças crônicas, entre outros.
Mas isso não significa que os pesquisadores tenham encontrado a causa.
Uma associação entre duas coisas não demonstra que uma produziu a outra.
Provavelmente há várias peças nessa história.
E talvez algumas delas ainda nem tenham sido identificadas.
Sentir-se mais jovem significa estar mais jovem?
Sabemos que a resposta é “não”. Mas essa distinção que pode parecer óbvia é importante e você já vai entender o motivo.
Sentir-se mais jovem não apaga a idade cronológica, não interrompe mudanças biológicas e não transforma 70 anos em 50. Ter isso em mente é importante para que continuemos nos cuidando.
Sentir-se mais jovem também não precisa significar rejeitar a idade que se tem.
Aliás, transformar “sentir-se jovem” em sinônimo de envelhecer bem criaria apenas uma nova obrigação: além de envelhecer, seria preciso provar que continuamos jovens.
Não é isso que esses estudos mostram.
Eles mostram algo mais curioso.
A experiência subjetiva da idade pode não ser fixa entre as gerações.
Chegar aos 60, 70 ou 80 anos hoje pode não ser vivido internamente exatamente da mesma maneira que essas idades eram vividas por pessoas nascidas décadas antes.
E isso nos leva de volta a Jerry Hall.
Quando ela olha para a avó aos 70 anos e pensa que aquela mulher parecia muito mais velha do que ela se sente hoje, sua experiência individual não prova o fenômeno encontrado pelos pesquisadores.
Mas ilustra perfeitamente a pergunta que eles resolveram medir.
Talvez não tenham mudado apenas as roupas, os cabelos, as fotografias e aquilo que esperamos fazer em determinada fase da vida.
Pode ter mudado também a idade que sentimos ter.
E isso ajuda a explicar uma sensação que muita gente conhece bem:
ter a mesma idade na certidão não significa necessariamente sentir essa idade da mesma maneira que as gerações anteriores sentiam.
Fontes consultadas
Wettstein, Markus et al. Younger Than Ever? Subjective Age Is Becoming Younger and Remains More Stable in Middle-Age and Older Adults Today. Psychological Science, 2023.
Akinocho, El-Mouksitou; Vanhoutte, Bram. Ageing Fast and Slow: A Longitudinal Examination of the Gap Between Subjective Age and Chronological Age and the Role of Functional Health. The Journals of Gerontology: Series B, 2025.
Lloyd, Kate. Jerry Hall At 70: “Life Is Quite Hard… You Should Have As Much Fun As You Can”. British Vogue, 2026.
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