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Ela acreditou estar vivendo um romance com um cantor. Aos 63 anos, perdeu pelo menos 384 mil dólares

O relacionamento começou no TikTok, continuou em conversas privadas e envolveu centenas de cartões-presente. O homem pediu que ela escondesse tudo da família. Foram os filhos que descobriram o golpe.

Tudo começou em fevereiro de 2026, quando uma mulher de 63 anos, moradora da Pensilvânia, nos Estados Unidos, conheceu alguém no TikTok.

Ele se apresentava como um cantor de música country em início de carreira. Não era uma celebridade consagrada, mas alguém que, supostamente, estava construindo seu caminho no mundo da música.

Os dois começaram a conversar.

Em algum momento, ele sugeriu que deixassem o TikTok e continuassem o contato pelo Telegram, aplicativo de mensagens que permite conversas privadas. Ela aceitou.

O que se seguiu foi um relacionamento virtual que atravessou meses e custou à mulher pelo menos 384 mil dólares — o equivalente a aproximadamente 1,9 milhão de reais, pela cotação de 9 de outubro de 2026.

Mas havia uma condição imposta pelo suposto cantor: ela não deveria contar à família sobre o relacionamento.

E, durante algum tempo, ninguém soube.

Um cantor que precisava de ajuda

O homem dizia precisar de dinheiro para apoiar sua carreira musical.

A mulher começou a enviar recursos. Além das transferências de dinheiro, comprou centenas de cartões-presente da Apple, conhecidos como Apple Gift Cards, e repassou os valores ao suposto namorado.

Cartões-presente da Apple, brancos e pretos, expostos em um suporte de loja ao lado de cartões de outras marcas.
Cartões-presente da Apple em uma exposição ilustrativa de loja. No golpe relatado nesta reportagem, a vítima foi convencida a entregar centenas desses cartões ao criminoso. Crédito: Imagem gerada com apoio de IA.

Esses cartões, normalmente usados para comprar produtos e serviços da Apple, também são explorados por criminosos. Basta obter os códigos para resgatar o saldo, o que pode dificultar a recuperação do dinheiro.

Os pedidos se repetiram ao longo dos meses.

Não se sabe exatamente o que o homem dizia a cada solicitação, se fazia promessas de encontros ou se inventava emergências. As reportagens disponíveis não reproduzem as mensagens trocadas entre os dois.

O que se sabe é que a mulher continuou enviando dinheiro.

E que o relacionamento permaneceu escondido dos filhos.

O segredo que ajudou a manter o golpe

Esse detalhe é um dos mais reveladores da história.

O homem não queria apenas receber dinheiro. Segundo as informações divulgadas pela imprensa americana, ele insistia para que a mulher não comentasse o relacionamento com os familiares.

O isolamento é uma estratégia conhecida nos golpes amorosos.

Quando uma pessoa conversa sobre um relacionamento com amigos ou parentes, alguém pode perceber uma inconsistência, fazer uma pergunta incômoda ou identificar um sinal de fraude.

Ao impedir essas conversas, o criminoso reduz as oportunidades de interferência.

Em setembro de 2026, a polícia britânica de Surrey publicou um alerta sobre golpes amorosos que ajuda a compreender esse mecanismo. Os investigadores descreveram casos em que criminosos iniciam contatos em redes sociais, levam as conversas para aplicativos privados e, depois de estabelecer uma relação de confiança, começam a pedir dinheiro.

Às vezes, usam declarações de amor e demonstrações intensas de carinho. Em outros casos, apresentam supostas emergências financeiras.

Isso não significa que conheçamos as palavras usadas pelo falso cantor da Pensilvânia. Mas mostra que o caminho percorrido pela vítima corresponde a um padrão já identificado pelas autoridades.

É justamente essa mistura de confiança, afeto e segredo que pode permitir que um golpe continue durante meses.

Quando os filhos descobriram

O relacionamento virtual terminou sob circunstâncias que as reportagens ainda não esclarecem completamente.

O que foi divulgado é que os filhos da mulher descobriram a fraude.

Em 6 de setembro de 2026, o caso foi registrado pela Polícia Estadual da Pensilvânia, que passou a investigar a ocorrência por meio de sua unidade de investigação criminal de Jonestown, no condado de Lebanon.

Dois dias depois, em 8 de setembro, a notícia começou a circular nos veículos de comunicação americanos.

A mulher havia perdido aproximadamente 384 mil dólares (mais de 1,9 milhão de reais), além de centenas de cartões-presente da Apple.

E o prejuízo poderia ser ainda maior.

A polícia informou que estava examinando registros financeiros e transações para determinar o valor exato e identificar as contas e pessoas envolvidas. Como o valor total dos cartões-presente não havia sido divulgado, ainda não era possível calcular quanto dinheiro a mulher efetivamente perdera.

Nas informações públicas localizadas até 9 de outubro de 2026, não encontramos confirmação de identificação ou prisão do responsável, nem de recuperação dos valores.

O nome da vítima também não foi divulgado.

Por que alguém envia tanto dinheiro a uma pessoa que nunca encontrou?

Vista de fora, a história provoca uma pergunta quase inevitável: como alguém pode entregar centenas de milhares de dólares a uma pessoa que conhece apenas pela internet?

Mas essa pergunta parte de uma posição privilegiada. Quem lê a notícia já sabe que era um golpe.

A vítima não tinha essa informação quando começou a conversar.

Para ela, o relacionamento poderia parecer verdadeiro. Cada nova conversa acontecia dentro de uma história que vinha sendo construída havia semanas ou meses.

Os golpes amorosos não dependem necessariamente de uma única mentira espetacular. Muitas vezes, funcionam pela acumulação de pequenas demonstrações de atenção, intimidade e confiança.

O criminoso pode aprender os hábitos da pessoa, demonstrar interesse por sua rotina, compartilhar supostos problemas e fazer com que ela se sinta importante.

Quando o pedido de dinheiro finalmente aparece, pode não ser percebido como uma transação com um desconhecido, mas como uma ajuda a alguém por quem já existe envolvimento emocional.

Isso não significa que conheçamos todos os sentimentos ou motivações dessa mulher. Não conhecemos.

Mas ajuda a compreender por que o golpe amoroso é diferente de uma fraude financeira comum.

O dinheiro é o objetivo do criminoso. O relacionamento é o instrumento.

E por que cartões-presente da Apple?

Esse é outro detalhe que chama atenção.

Quem compra um cartão-presente normalmente pretende presentear alguém ou utilizar o crédito em produtos e serviços.

Mas, nas mãos de um golpista, esses cartões podem funcionar como uma forma de transferir valor sem fazer um depósito bancário convencional.

O criminoso pede que a vítima compre o cartão e envie os códigos necessários para resgatar o saldo.

Depois que o crédito é utilizado, recuperar o dinheiro pode ser muito difícil.

A própria Apple alerta para esse tipo de fraude. Em uma orientação publicada em junho de 2026, a empresa explica que seus cartões-presente só devem ser utilizados para adquirir produtos e serviços da Apple. Pedidos para usá-los como pagamento de outras despesas são sinais de possível golpe.

A empresa também esclarece que os criminosos podem gastar o saldo assim que recebem os códigos, antes mesmo que a vítima consiga procurar ajuda.

É por isso que um pedido aparentemente estranho — comprar cartões de uma empresa de tecnologia para ajudar a carreira de um cantor — merece atenção.

No caso da Pensilvânia, a quantidade impressiona: foram centenas de cartões.

A polícia ainda investigava o montante total do prejuízo.

A idade não explica o golpe

A vítima tinha 63 anos. É uma informação relevante para compreender quem protagoniza essa história, mas não explica, por si só, por que ela foi enganada.

Golpes amorosos também atingem pessoas mais jovens.

O jornalista Brian Roche, que acompanhou o caso para a emissora americana WGAL, observou que já entrevistou vítimas na faixa dos 30 e 40 anos.

Há outro dado interessante. Em fevereiro de 2026, meses antes de o caso se tornar público, o procurador-geral da Pensilvânia, Dave Sunday, divulgou um alerta sobre fraudes amorosas. Segundo o órgão, embora pessoas idosas fossem anteriormente os principais alvos, pessoas mais jovens já estavam sendo atingidas em proporções próximas.

O que os criminosos procuram não é simplesmente uma determinada idade, mas oportunidades de estabelecer confiança e explorar sentimentos.

Uma pessoa pode ter experiência profissional, independência financeira, formação universitária e uma vida inteira de decisões bem-sucedidas — e ainda assim ser enganada por alguém que constrói deliberadamente uma falsa relação afetiva.

A experiência de vida não torna ninguém imune à manipulação.

O que aconteceu com o falso cantor?

Até o momento das informações consultadas, a investigação permanecia sem um desfecho público confirmado.

Os policiais buscavam identificar as pessoas e contas associadas às transferências e calcular o prejuízo definitivo.

Não havia confirmação pública sobre quem estava por trás do perfil, se uma única pessoa conduziu toda a fraude ou se outras pessoas participaram.

Também não é possível afirmar que o criminoso fosse realmente um homem, cantor ou residente nos Estados Unidos.

A identidade apresentada no TikTok fazia parte da história contada à vítima. Não era necessariamente a identidade de quem estava escrevendo as mensagens.

E essa talvez seja uma das características mais perturbadoras dos golpes amorosos pela internet: durante meses, alguém pode acreditar que está conhecendo profundamente uma pessoa sem sequer saber quem está do outro lado da conversa.

O dinheiro não é a única perda

O prejuízo de pelo menos 384 mil dólares é impressionante. Mas o golpe pode deixar outra consequência difícil de medir.

A pessoa descobre que um relacionamento no qual investiu tempo, confiança, expectativas e sentimentos talvez nunca tenha existido.

O afeto que parecia recíproco era parte de uma estratégia para obter dinheiro.

E, quando a fraude vem à tona, ainda pode surgir a vergonha de contar o que aconteceu.

Essa vergonha beneficia os criminosos.

Afinal, quanto mais as vítimas se calam por medo de julgamento, menos oportunidades existem para interromper os golpes e alertar outras pessoas.

No caso da mulher da Pensilvânia, foram os filhos que perceberam o que estava acontecendo.

Não sabemos como foi essa descoberta, o que disseram à mãe ou como ela reagiu.

Mas sabemos que o segredo, que ajudou a manter o relacionamento longe dos olhos da família, acabou sendo rompido.

E que uma história que parecia ser de amor passou a ser investigada como um crime.

Fontes consultadas

Brian Roche. Woman scammed out of more than $300,000 by man posing as country music star on TikTok. WAPT / Hearst Television, 2026.

Frederick Sutton Sinclair. Pennsylvania woman scammed out of more than $300,000 in online romance scheme. CBS Philadelphia, 2026.

Cherise Lynch. Pennsylvania woman loses more than $384K in alleged romance scam. NBC10 Philadelphia, 2026.

Apple. Sobre fraudes envolvendo cartões-presente. Suporte da Apple, 2026.

Surrey Police. Fraud Newsletter September 2026. Surrey Police, 2026.

Federal Bureau of Investigation (FBI). Romance Scams. FBI.


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Caroline Borja, phD, divulgadora científica

Caroline Borja é escritora, divulgadora científica e pesquisadora. Farmacêutica, mestre e doutora em Farmacologia pela UNICAMP e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP, dedicou 25 anos à carreira acadêmica, sendo 13 anos na UNICAMP e 12 anos como docente da Universidade de São Paulo (USP) — onde ingressou por concurso —, em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Na USP, lecionou temas relacionados ao envelhecimento humano e à saúde.

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