Por que às vezes não conseguimos encontrar uma coisa que está bem na nossa frente?
Linha fina: Você olha, procura, volta a olhar… e nada. Pesquisas sobre a atenção visual ajudam a explicar por que nossos olhos podem passar por um objeto sem que a gente consiga encontrá-lo.
Você abre a geladeira procurando alguma coisa. Olha a primeira prateleira, examina a segunda, mexe em alguns potes. Nada. Fecha a porta, abre novamente, procura mais um pouco.
Até que outra pessoa chega, aponta para a prateleira e diz:
— Mas está bem aí!
E está mesmo. Bem na sua frente. Ou bem debaixo do seu nariz, como se costuma dizer.
Essa cena, aliás, gera muito aquele dito popular: se fosse uma cobra me mordia.
Isso também é comum em outros cenários: em uma loja ou supermercado, por exemplo, enquanto seus olhos percorrem as prateleiras em busca de algo específico. Estava lá, mas você não viu.
Como é possível ter olhado para aquele lugar várias vezes e não ter visto o que estava procurando?
A resposta é mais interessante do que parece. E começa com uma descoberta sobre o funcionamento da nossa atenção: nem tudo o que nossos olhos alcançam chega a ser reconhecido pelo cérebro.
Olhar não significa necessariamente enxergar
Quando abrimos a geladeira — ou vasculhamos um supermercado —, temos a impressão de estar vendo tudo o que existe ali dentro: os potes, as garrafas, as embalagens, as frutas.
Mas não é bem assim.
Em uma revisão científica publicada em 2017 na revista Nature Human Behaviour, os pesquisadores Jeremy Wolfe e Todd Horowitz explicaram que nosso sistema visual tem uma limitação fundamental: não consegue reconhecer todos os objetos de uma cena ao mesmo tempo.
Para encontrar alguma coisa, o cérebro precisa selecionar o que merece atenção.
É como se nossos olhos percorressem toda a prateleira, mas nossa atenção examinasse apenas alguns candidatos de cada vez.
E isso geralmente funciona muito bem. Imagine se tivéssemos que analisar detalhadamente cada objeto, cada cor e cada formato sempre que entrássemos em uma cozinha!
O problema aparece quando aquilo que estamos procurando não recebe a atenção necessária para ser reconhecido.
O objeto pode estar diante dos nossos olhos. Mas isso, por si só, não garante que vamos identificá-lo.
Às vezes, procuramos uma coisa diferente daquela que está ali
Existe outro detalhe curioso: quando procuramos um objeto, não começamos a busca do zero.
Nosso cérebro já tem uma ideia de como aquele objeto deve ser.
Imagine que você esteja procurando um pote de mostarda. Na sua cabeça, ele tem determinado tamanho, formato e cor. Só que a embalagem mudou, ou o pote está virado de um jeito diferente.
O pote está lá. Só não é o pote que você estava esperando encontrar.
Agora existe uma pequena disputa entre aquilo que você espera encontrar e aquilo que realmente está diante dos seus olhos.
Em 2015, os pesquisadores Michael Hout e Stephen Goldinger publicaram um estudo com sete experimentos sobre esse mecanismo.
Eles descobriram que, quando a imagem mental de um objeto não corresponde bem à sua aparência real, a busca visual fica prejudicada. Os participantes podiam demorar mais tanto para direcionar a atenção ao alvo quanto para confirmar que haviam encontrado o objeto certo.
Ou seja: nossa ideia de como uma coisa deveria parecer pode acabar dificultando o reconhecimento da própria coisa.
E não é só a aparência que conta.
O lugar onde esperamos encontrar alguma coisa também influencia
Se você procura as chaves de casa, provavelmente começa pelos lugares onde costuma deixá-las.
Se está procurando o controle remoto, seus olhos podem ir primeiro para o sofá ou para a mesinha da sala.
Isso acontece porque a atenção não examina o ambiente de maneira aleatória. Ela é guiada também pelo que sabemos sobre os objetos e pelos lugares onde esperamos encontrá-los.
É uma espécie de atalho. E, na maior parte das vezes, um atalho muito útil.
Mas imagine que alguém colocou o controle remoto sobre uma estante onde ele nunca costuma ficar.
Você pode passar os olhos pela sala inteira e continuar concentrando a busca nos lugares mais prováveis.
O controle está ali. Só não está onde o seu cérebro esperava encontrá-lo.
E o mais surpreendente: podemos olhar diretamente para um objeto e não reconhecê-lo
Essa possibilidade foi investigada em outro estudo, publicado em 2015 no Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance.
Os pesquisadores realizaram quatro experimentos nos quais os participantes precisavam procurar dois tipos de objetos: ursos de pelúcia e borboletas.
Em uma das tarefas, as pessoas procuravam essas figuras entre imagens de outros objetos, enquanto equipamentos acompanhavam os movimentos dos seus olhos.
Os pesquisadores queriam entender por que deixamos passar despercebidos objetos que aparecem raramente.
Um dos resultados foi especialmente revelador.
Quando determinados alvos apareciam com pouca frequência, os participantes algumas vezes olhavam diretamente para eles e, mesmo assim, não os identificavam.
Em condições específicas dos experimentos, isso aconteceu em 12% a 34% das tentativas examinadas.
É importante distinguir: esses números pertencem àquelas tarefas de laboratório. Não significam que deixamos de enxergar objetos nessa proporção quando procuramos alguma coisa em casa.
Mas o resultado demonstra algo fascinante: até mesmo olhar diretamente para um objeto não é garantia de reconhecê-lo.
Existe uma diferença entre receber a informação visual e perceber que aquilo é justamente o que estávamos procurando.
Então por que outra pessoa encontra imediatamente?
Agora podemos voltar à geladeira.
Você examinou as prateleiras, olhou para os potes e teve certeza de que o objeto não estava ali.
Outra pessoa chegou, olhou e encontrou.
A explicação pode envolver uma combinação de fatores: onde cada um concentrou a atenção, qual aparência esperava encontrar e quais regiões da geladeira considerou mais prováveis.
Não significa necessariamente que a outra pessoa tenha uma visão melhor ou uma memória mais eficiente.
Ela pode simplesmente ter realizado uma busca diferente.
No fundo, o que parece uma falha absurda revela uma característica do funcionamento normal do nosso sistema visual.
Nosso cérebro não examina tudo com a mesma atenção. Ele faz escolhas, utiliza expectativas e procura atalhos para encontrar aquilo de que precisamos.
Quase sempre, isso nos ajuda.
De vez em quando, nos faz procurar por vários minutos alguma coisa que estava bem na nossa frente.
E então chega alguém, aponta para a prateleira e diz:
— Mas está bem aí!
A geladeira não mudou. O objeto também não.
O que mudou foi a maneira de procurar.
Fontes consultadas
WOLFE, Jeremy M.; HOROWITZ, Todd S. Five factors that guide attention in visual search. Nature Human Behaviour, 2017.
HOUT, Michael C.; GOLDINGER, Stephen D. Target templates: the precision of mental representations affects attentional guidance and decision-making in visual search. Attention, Perception, & Psychophysics, 2015.
HOUT, Michael C.; WALENCHOK, Stephen C.; GOLDINGER, Stephen D.; WOLFE, Jeremy M. Failures of perception in the low-prevalence effect: Evidence from active and passive visual search. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 2015.
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