Dinheiro

Bilhete defeituoso ganha R$ 29 milhões na Mega-Sena e caso dá início a uma disputa pelo prêmio

Uma aposta de R$ 5, um problema na impressão e uma coincidência extraordinária deram origem a uma disputa que começou em 2023 e, três anos depois segue sem solução.

Era sábado, 12 de agosto de 2023. Uma cliente foi fazer sua aposta na Mega-Sena em uma lotérica de Sinop, no Mato Grosso.

Do outro lado do balcão, a funcionária Clarice Simon registrou os números escolhidos. Mas, na hora de imprimir o comprovante, alguma coisa deu errado. O bilhete saiu danificado.

Clarice refez a aposta com os mesmos números, entregou o novo comprovante à cliente e guardou o primeiro em um compartimento da lotérica.

Parecia apenas um pequeno contratempo daqueles que acontecem todos os dias.

Naquela noite, os dois bilhetes acertaram os seis números da Mega-Sena.

E cada um valia R$ 29.058.128,28.

Dois prêmios milionários na mesma lotérica

O concurso 2.620 da Mega-Sena teve quatro apostas vencedoras em todo o Brasil. Uma foi registrada em Fortaleza, outra em Uberaba, Minas Gerais, e duas saíram exatamente da mesma lotérica de Sinop.

A coincidência chamou tanta atenção que, na época, a gerente do estabelecimento, Marlucia Alves, chegou a imaginar uma explicação: talvez alguém tivesse feito a aposta, esquecido e voltado para jogar os mesmos números.

Mas não foi isso que aconteceu.

Os dois bilhetes premiados haviam surgido justamente daquele problema de impressão.

A cliente que recebeu o comprovante substituto teve seu prêmio pago normalmente.

Já o outro bilhete, aquele que havia saído com defeito, continuava guardado na lotérica.

E começava ali uma história que estava longe de terminar.

O bilhete saiu do cofre. E a disputa começou.

Na segunda-feira seguinte ao sorteio, 14 de agosto, Clarice voltou ao trabalho.

Imagens das câmeras de segurança, exibidas posteriormente pelo Fantástico, mostram a funcionária retirando o bilhete do compartimento onde havia sido guardado. Uma colega, Vani Porfírio, ajudou a conferir o resultado.

O comprovante estava premiado.

Clarice deixou o estabelecimento e foi com o marido a uma agência da Caixa Econômica Federal para apresentar a aposta. No dia seguinte, pediu demissão da lotérica.

Mas quem era, afinal, o dono daquele bilhete de R$ 29 milhões?

Clarice afirma que havia pago os R$ 5 da aposta defeituosa. Segundo ela, os funcionários costumavam arcar com o custo dos jogos que saíam com problemas na impressão.

Em entrevista ao Fantástico, sua antiga colega Vani contou que o caixa de Clarice havia fechado sem diferença de valores naquele sábado. Para as duas, isso reforçaria a versão de que a funcionária tinha pago pela aposta.

O proprietário da lotérica contesta essa história. Ele reivindica o prêmio e sustenta que o bilhete pertencia ao estabelecimento.

A investigação policial também questionou a versão de Clarice. Segundo o delegado responsável, os comprovantes apresentados por ela não demonstravam o pagamento daquela aposta específica.

O que começou com um pedaço de papel danificado havia se transformado numa disputa por uma fortuna.

Três anos depois, os R$ 29 milhões continuavam sem dono definido

A Polícia Civil investigou o caso, e o Ministério Público denunciou Clarice e o marido por furto qualificado. Os dois passaram a responder a uma ação criminal, mas a acusação não equivale a uma condenação.

Em novembro de 2023, a Justiça determinou o bloqueio do prêmio.

O caso chegou também ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em decisão divulgada em julho de 2026, o tribunal manteve o processo criminal na Justiça estadual, considerando que o bilhete estava sob a guarda da lotérica quando foi retirado.

A decisão, porém, não resolveu definitivamente quem tem direito aos R$ 29 milhões. Essa disputa também é objeto de um processo na área cível.

Em julho de 2026, quase três anos depois do sorteio, o prêmio permanecia bloqueado. As audiências do processo criminal estavam previstas para começar em fevereiro de 2027.

Enquanto isso, uma das duas apostas idênticas já havia transformado a vida de uma cliente.

A outra, que inicialmente parecia apenas um comprovante com defeito, acabou colocando uma ex-funcionária e os proprietários de uma lotérica numa disputa milionária.

Tudo começou com um bilhete de R$ 5 que saiu errado da impressora.

E terminou — pelo menos até agora — com uma pergunta de R$ 29 milhões: a quem pertence aquele prêmio?

Informações verificadas em outubro de 2026. O desfecho judicial ainda não havia sido confirmado nas fontes públicas consultadas.

Fontes consultadas

Superior Tribunal de Justiça (STJ). Furto de bilhete premiado em lotérica deve ser julgado pela Justiça estadual. 13 jul. 2026.

Fantástico — TV Globo. Um bilhete da Mega Sena rasgado e uma briga na Justiça: dono da lotérica e ex-funcionária disputam prêmio de R$ 29 milhões. 5 jul. 2026.

Ana Julia Pereira. Dono de lotérica e ex-funcionária disputam bilhete danificado premiado de R$ 29 milhões da Mega-Sena em MT; entenda. Primeira Página, 6 jul. 2026.

Ana Julia Pereira. Ex-funcionária de lotérica em MT diz que tinha que pagar do próprio bolso por bilhetes rasurados e bolões não vendidos. Primeira Página, 7 jul. 2026.

g1. Gerente de lotérica em Sinop crê que o mesmo cliente fez bilhetes iguais. Estadão Mato Grosso, 14 ago. 2023.


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Caroline Borja, phD, divulgadora científica

Caroline Borja é escritora, divulgadora científica e pesquisadora. Farmacêutica, mestre e doutora em Farmacologia pela UNICAMP e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP, dedicou 25 anos à carreira acadêmica, sendo 13 anos na UNICAMP e 12 anos como docente da Universidade de São Paulo (USP) — onde ingressou por concurso —, em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Na USP, lecionou temas relacionados ao envelhecimento humano e à saúde.

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