Ela se aposentou e transformou o que já fazia em uma nova carreira: “filha de aluguel”
Depois de se aposentar, Lucimara Camargo percebeu que aquilo que fazia de graça havia anos resolvia um problema real. Hoje, acompanha pessoas mais velhas em consultas, compras e compromissos — e descobriu que outras mulheres estão fazendo o mesmo.
Lucimara Camargo já fazia aquilo antes de imaginar que poderia ser um trabalho.
Acompanhava pessoas conhecidas ao médico, ao banco, a lojas e a outros compromissos. Ia junto, ajudava no que fosse preciso e não cobrava nada.
Então ela se aposentou.
Aos 54 anos, a moradora de Itu, no interior de São Paulo, começou a olhar de outro jeito para algo que até ali parecia apenas uma ajuda cotidiana.
Por que não receber por aquilo que já fazia?
Hoje, Lucimara oferece um serviço que chama atenção já pelo nome: trabalha como “filha de aluguel”.
Em agosto, um anúncio publicado por ela no Facebook ganhou repercussão. E Lucimara descobriu que o interesse não vinha apenas de possíveis clientes.
Mulheres de diferentes partes do Brasil começaram a procurá-la para entender como o trabalho funcionava. Algumas contaram que também já faziam coisas parecidas para parentes — só nunca tinham pensado em transformar aquilo em fonte de renda.
O que faz uma “filha de aluguel”?
Uma consulta médica. Um exame. Fisioterapia. Banco. Mercado. Shopping.
São algumas das situações em que Lucimara entra em cena.
Ela busca a pessoa, ajuda a entrar e sair do carro e a acompanha no lugar aonde precisa ir. Pode fazer o trajeto em seu próprio veículo ou, se o cliente preferir, dirigir o carro dele.

Lucimara faz questão de se definir como acompanhante, e não cuidadora. Segundo ela, a principal procura é justamente pelo deslocamento: filhos e outros familiares muitas vezes estão trabalhando e não conseguem levar pais e mães aos compromissos.
Uma das pessoas que ela acompanha é Antonia de Campos, de 75 anos.
Os filhos de Antonia vivem em Madri, na Espanha. E a relação entre as duas vem de muito antes da nova atividade profissional de Lucimara: Antonia conta que recorre a ela há cerca de dez anos.
Com o tempo, a ajuda prática criou também um vínculo.
Antonia diz que Lucimara virou uma espécie de filha de coração, alguém que ela procura inclusive quando quer conversar.
A história das duas ajuda a entender uma coisa importante: precisar de companhia em determinados momentos não significa necessariamente perder a autonomia.
Às vezes, não falta alguém para cuidar.
Falta alguém para ir junto.
O anúncio chamou atenção — e Lucimara descobriu que não estava sozinha
O caso de Itu está longe de ser o único.
Em São José do Rio Preto, também no interior paulista, Graziela Benossi percebeu algo enquanto ainda era dona de uma farmácia: muitos clientes mais velhos não apareciam apenas para comprar medicamentos.
Também queriam conversar.
Depois de vender o estabelecimento, em 2023, Graziela criou um serviço para acompanhar pessoas mais velhas em consultas, compras e passeios e adotou justamente o nome Filha de Aluguel.
Em Vitória, no Espírito Santo, a publicitária Luciana Moulin começou a oferecer acompanhamento em julho de 2026.
Um de seus primeiros serviços foi para uma mulher que havia ficado viúva recentemente e nunca tinha viajado sozinha. Luciana foi contratada para levá-la ao aeroporto, tomar um café com ela e permanecer ao seu lado até o embarque.
Há exemplos surgindo em outras regiões.
Em Curitiba, a enfermeira Alessandra Calcanhoto Sitko, com mais de 30 anos de experiência profissional, também anuncia nas redes seus serviços como “filha de aluguel”. Ela acompanha clientes a exames, mercado, farmácia, igreja e até cabeleireiro.
Em setembro de 2026, contou que já fazia esse trabalho havia dois anos e atendia quatro pessoas regularmente.
“Filha de aluguel” não se tornou uma nova profissão oficial.
Mas casos em diferentes cidades mostram que uma necessidade já existente começa a ganhar nome — e mercado.
Por que esse tipo de serviço está aparecendo agora?
Por trás dessas pequenas cenas do cotidiano está acontecendo uma mudança enorme.
O Brasil envelheceu rapidamente.
Segundo o IBGE, o país passou de cerca de 22 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2012 para 34,1 milhões em 2024.
Mas não é apenas a quantidade de pessoas mais velhas que mudou.
Famílias ficaram menores. Pais e filhos podem viver em bairros, cidades ou países diferentes. E os compromissos de trabalho nem sempre permitem que alguém esteja disponível no momento de uma consulta ou de um exame.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas chegam a idades mais avançadas mantendo autonomia e administrando a própria vida.
Elas podem não precisar de assistência permanente.
O que podem precisar, de vez em quando, é de presença.
Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo observam que contratar alguém para esse acompanhamento não significa necessariamente abandono familiar. O serviço pode funcionar justamente como complemento de uma rede de apoio que não consegue estar fisicamente presente em todos os momentos.
Ele aparece no encontro de duas mudanças: as pessoas vivem mais e as famílias vivem de outro jeito.
Mas “filha de aluguel” é cuidadora?
“Filha de aluguel” é uma expressão informal.
Ela não existe com esse nome na Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério do Trabalho e Emprego.
Na CBO, o código 5162-10 corresponde a cuidador de idosos e traz “acompanhante de idosos” entre as denominações relacionadas à ocupação.
Na prática, porém, as pessoas que oferecem serviços com nomes como “filha de aluguel” frequentemente fazem uma distinção.
Lucimara, por exemplo, diz que é acompanhante e que seu trabalho está concentrado principalmente nos deslocamentos e compromissos.
A Folha também encontrou profissionais que atendem sobretudo pessoas que conservam autonomia, enquanto limitações físicas ou cognitivas podem exigir outro nível de cuidado.
A diferença não elimina a responsabilidade.
A professora Rosa Chubaci, do curso de Gerontologia da USP, alerta que mesmo quem acompanha precisa saber observar dificuldades para caminhar, alimentação e outras situações que possam representar risco.
Companhia pode ser o serviço.
Responsabilidade também faz parte dele.
A aposentadoria acabou abrindo outra porta
Lucimara não se aposentou planejando criar uma nova carreira.
Em 2025, quando deixou de trabalhar, começou a enxergar de outra maneira algo que já fazia espontaneamente.
Levava pessoas próximas a médicos, bancos e lojas sem cobrar.
Depois percebeu que aquele tempo, aquela disponibilidade e a capacidade de acompanhar alguém também tinham valor como trabalho.
Seu anúncio chegou muito além de Itu.
E uma das consequências mais curiosas veio de pessoas que nem estavam procurando contratar seus serviços.
Eram mulheres querendo saber como poderiam fazer o mesmo.
Algumas já acompanhavam parentes em consultas, compras e compromissos.
Tal como Lucimara fizera durante tanto tempo.
Faltava apenas olhar para aquilo de outro jeito.
Fontes consultadas
g1. [“Filha de aluguel”: moradora do interior de SP oferece serviço de acompanhante para auxiliar idosos em tarefas diárias]. g1 Sorocaba e Jundiaí, 2026.
Folha de S.Paulo. [“Filha de aluguel”, serviço para acompanhar idosos, ganha espaço com envelhecimento da população]. Folha de S.Paulo, 2026.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [Síntese de Indicadores Sociais / dados sobre a população de 60 anos ou mais no Brasil]. IBGE, 2026.
Ministério do Trabalho e Emprego. [Classificação Brasileira de Ocupações — Cuidador de idosos / acompanhante de idosos]. CBO, 2026.
Bem Paraná. [“Filha de aluguel”: enfermeira de Curitiba acompanha idosos em exames, compras e até no cabeleireiro]. Bem Paraná, 2026.
KINDLE UNLIMITED
Milhões de eBooks para você ler onde e quando quiser. Junte-se ao Kindle Unlimited na AMAZON.
Você costuma comprar online? Saiba que assinar o AMAZON PRIME pode ser muito vantajoso. Com ele, por uma taxa mensal bem baixa, você terá frete grátis, e isso sem valor mínimo de compra. E mais! Você ganha acesso a ofertas exclusivas e Prime Video, com filmes, séries e esportes ao vivo. Clique aqui para saber mais e testar GRÁTIS por 30 dias.
