O segurança achou que ele não era candidato. Aos 64 anos, Francisco estava ali para prestar Medicina
Francisco Bessa voltou a estudar depois de quatro décadas. Histórias de alunos de 60 e 70 anos mostram como a universidade ainda pode parecer um lugar com idade marcada.
No dia do vestibular de Medicina, Francisco Fabiano Bessa chegou ao local da prova e encontrou uma dificuldade que provavelmente não estava entre as que havia imaginado.
O segurança tentou barrá-lo.
Ali só entrava quem fosse fazer o vestibular.
Francisco explicou que era exatamente por isso que estava ali — e mostrou o cartão de inscrição.
O segurança pediu desculpas.
O episódio terminou ali. Mas o pequeno engano dizia alguma coisa maior.
Ao redor de Francisco havia muitos candidatos jovens. Ele tinha 64 anos.
A possibilidade de que aquele homem fosse um deles simplesmente não havia ocorrido.
No ano seguinte, em 2023, Francisco já tinha 65 anos e estava cursando Medicina na UNDB, em São Luís, no Maranhão, depois de aproximadamente quatro décadas longe das salas de aula.
E talvez a parte mais interessante da história não seja ele ter começado Medicina nessa idade.
Talvez seja o fato de isso ainda nos causar espanto.
Quarenta anos depois
Francisco havia pensado em Medicina quando era jovem, mas a vida tomou outro caminho.
Trabalhou durante anos no Banco do Brasil, chegou a gerente e, mais tarde, administrou um restaurante. Quando o negócio não resistiu à pandemia, uma possibilidade muito antiga reapareceu.
Medicina.
Ele começou a estudar sozinho.
Durante o dia, trabalhava como garçom. Nas madrugadas, preparava-se para o vestibular.
Foram quase dois anos até a aprovação.
No começo, a idade também aparecia nas perguntas que ele fazia a si mesmo.
Será que ainda conseguiria estudar?
Será que conseguiria passar?
Até descobrir, na prática, que conseguia.
Quando entrou na faculdade, encontrou colegas muito mais jovens, aulas em período integral e a rotina pesada de um curso de Medicina.
O homem que, do lado de fora, parecia improvável era, do lado de dentro, simplesmente um aluno.
Mas essa troca de olhar nem sempre acontece imediatamente.
“O que você está fazendo aqui?”
A frase virou título de uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás.
O que você está fazendo aqui?
O antropólogo Delson Ferreira acompanhou as experiências de 11 estudantes de graduação com 60 anos ou mais.
A pergunta resumia uma reação que alguns deles encontravam na universidade.
Às vezes vinha de colegas.
Às vezes, até de professores.
O que uma pessoa dessa idade está fazendo aqui?
Em alguns relatos surgia uma ideia ainda mais reveladora: a de que um estudante mais velho poderia estar ocupando uma vaga que deveria pertencer a alguém jovem.
É uma lógica curiosa.
Raramente alguém pergunta a um universitário de 20 anos por que ele está ali.
Aos 60, 70 ou mais, a presença começa a pedir explicação.
Aos 77, Maristela ainda tinha planos
Uma das participantes da pesquisa recebeu o nome fictício de Maristela.
Ela tinha 77 anos e já havia concluído uma graduação em Letras. Na época da pesquisa, acabara de finalizar outro curso na área de Ciências Humanas na UFG.
Mas sua história com aquilo que uma pessoa “deveria” ou “não deveria” fazer começara muito antes.
Quando jovem, Maristela quis cursar Enfermagem.
O pai não permitiu.
Achava que não era “profissão para moças”.
A vida seguiu.
Décadas depois, havia outro roteiro esperando por ela.
Dessa vez, não se tratava mais do que uma moça deveria fazer.
Tratava-se do que se esperava de uma mulher velha.
Para Maristela, estudar era também uma maneira de permanecer socialmente ativa e não aceitar como destino único dessa fase da vida ficar apenas cuidando dos netos.
É curioso como a frase muda e continua parecida.
Quando jovem, certas coisas não eram para uma mulher.
Muitos anos depois, certas coisas já não seriam para alguém da idade dela.
Nídia conhecia aqueles olhares
Outra participante, identificada como Nídia, tinha 69 anos.
Mulher negra e já formada em Direito, havia concluído mais um curso, também na área de Ciências Humanas.
Dentro da universidade, percebeu duas coisas que não precisavam necessariamente ser ditas em voz alta.
Racismo.
E etarismo.
Estavam também nos olhares que pareciam perguntar o que ela fazia ali.
Esse talvez seja um dos aspectos mais difíceis de perceber no preconceito relacionado à idade.
Nem sempre alguém diz:
“Você é velha demais para isso.”
A mensagem pode chegar pelo espanto.
Por uma brincadeira.
Por uma pergunta que jamais seria feita ao colega mais jovem.
Pela suposição de que aquela pessoa deve ser professora, mãe de algum aluno ou visitante.
Ou simplesmente por aquele segundo a mais de surpresa quando ela diz:
“Sou aluna.”
Mas faculdade precisa servir para alguma coisa?
Existe outra pergunta escondida nessas histórias.
Para que alguém de 70 anos vai querer fazer uma faculdade?
À primeira vista, ela parece bastante prática.
Quanto tempo essa pessoa terá para exercer a profissão?
Vai trabalhar depois?
Vai usar o diploma para quê?
Mas essas perguntas trazem junto uma ideia que quase nunca examinamos: a de que estudar só vale a pena se houver muitos anos de produtividade profissional pela frente.
Para algumas pessoas, uma nova graduação realmente significa uma nova carreira.
Para outras, é o diploma que não puderam buscar antes.
Pode ser um interesse antigo.
Um projeto depois da aposentadoria.
Um sonho adiado.
Ou simplesmente vontade de aprender alguma coisa que sempre quiseram aprender.
Entre os estudantes acompanhados pela pesquisa da UFG havia quem estivesse fazendo a primeira graduação e quem já tivesse passado pela universidade antes.
E isso nos leva a uma pergunta um pouco diferente:
desde quando aprender precisa de justificativa depois de certa idade?
Talvez exista um calendário que ninguém nos mostrou
Durante boa parte da vida, seguimos uma espécie de calendário invisível.
Primeiro estudamos.
Depois começamos a trabalhar.
Construímos carreira.
Talvez nos casemos, tenhamos filhos.
Mais tarde vem a aposentadoria.
A sequência varia, naturalmente. Mas a ideia de que cada coisa tem sua hora permanece forte.
E, em algum ponto desse calendário, certas possibilidades começam a desaparecer.
Não porque tenham se tornado impossíveis.
Porque parecem atrasadas.
É por isso que um homem de 64 anos chega para prestar vestibular e o segurança não o reconhece como candidato.
É por isso que alguém com 60 ou 70 anos pode entrar numa universidade e ouvir:
“O que você está fazendo aqui?”
Talvez essas pessoas não tenham feito nada além de sair da ordem prevista.
E basta alguém sair dela para que a idade, de repente, fique muito visível.
Então existe idade certa para começar de novo?
Existem idades em que determinadas coisas são mais comuns.
Isso é bem diferente de dizer que são as únicas idades em que elas fazem sentido.
Francisco foi prestar Medicina aos 64.
Maristela concluiu outra graduação aos 77.
Nídia voltou à universidade aos 69.
À primeira vista, a idade é o que torna as três histórias incomuns.
Mas, olhando um pouco mais de perto, há nelas coisas absolutamente corriqueiras.
Curiosidade.
Planos.
Vontade de aprender.
Coisas que ficaram para depois.
Coisas que ainda se quer fazer.
Talvez algumas pessoas não estejam chegando tarde.
Talvez seja o nosso relógio que continue marcando a hora errada.
Fontes consultadas
Carvalho, Pietra. “Veem um idoso, não enxergam um aluno”: ele passou em Medicina aos 64 anos. UOL, 2023.
Universidade de Brasília. UnB divulga primeira chamada do processo seletivo com vagas destinadas a pessoas idosas para ingresso no segundo semestre. UnB Notícias, 2026.
Universidade Federal de Goiás. Na contramão do etarismo: pesquisa revela trajetórias de estudantes 60+ na UFG. Jornal UFG, 2025.
Ferreira, Delson. O que você está fazendo aqui? Uma etnografia sobre as narrativas de pessoas com 60 anos de idade ou mais estudantes de graduação da UFG e seus agenciamentos. Universidade Federal de Goiás, 2025.

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