Vida

Por que tanta gente usa vinagre no lugar do amaciante — e continua usando?

Há quem tenha abandonado o amaciante há anos e não sinta a menor falta. O que essas pessoas descobriram sobre as roupas? E o que a ciência realmente explica?

Tem gente que não troca o amaciante por nada. Adora aquele perfume de roupa recém-lavada, a sensação de maciez e o cheiro que fica no armário.

Mas existe outro grupo que fez justamente o contrário: tirou o amaciante da lavanderia, colocou uma garrafa de vinagre de álcool no lugar e nunca mais voltou atrás.

O curioso é que muitas dessas pessoas não estão simplesmente tentando economizar. Algumas dizem que, com o vinagre, as toalhas secam melhor. Outras gostam de não sentir perfume nas roupas. Há quem diga que deixou de sentir aquele cheiro desagradável que às vezes aparece mesmo depois da lavagem.

Mas como um produto tão simples, conhecido principalmente por seu uso na cozinha, conquistou espaço na lavanderia?

A resposta começa com uma descoberta interessante: vinagre e amaciante não fazem a mesma coisa.

E isso ajuda a explicar por que algumas pessoas preferem o resultado de um ao do outro.

O amaciante deixa as roupas macias. Mas como?

Quando colocamos amaciante na máquina, ele não age como o sabão, que ajuda a remover a sujeira.

Sua função é outra.

Os amaciantes convencionais contêm substâncias que se depositam nas fibras dos tecidos e modificam a maneira como elas interagem. Isso pode reduzir a sensação de aspereza e deixar as roupas mais agradáveis ao toque.

É um efeito real, estudado pela ciência.

Aliás, pesquisadores descobriram algo curioso: a rigidez de um tecido de algodão não depende apenas do atrito entre suas fibras. Durante a secagem, pequenas quantidades de água que permanecem associadas a elas também podem favorecer interações que deixam o tecido mais rígido.

Determinados ingredientes dos amaciantes interferem nesse processo.

Mas a camada que ajuda a produzir maciez também explica por que algumas pessoas preferem dispensar o produto.

Dependendo do tecido, da formulação e da quantidade utilizada, resíduos de amaciante podem interferir em características que valorizamos nas roupas, como a capacidade de absorver água.

E isso nos leva a uma das peças mais interessantes dessa história: as toalhas de banho.

Por que algumas pessoas preferem as toalhas sem amaciante?

Imagine sair do banho, pegar uma toalha perfumada e macia e perceber que ela não enxuga tão bem quanto você gostaria.

Pode parecer contraditório, mas maciez e capacidade de absorção não são exatamente a mesma coisa.

Uma toalha precisa ter fibras capazes de entrar em contato com a água e absorvê-la. Determinados tratamentos que modificam a superfície dessas fibras podem prejudicar esse processo.

É por isso que abandonar o amaciante pode produzir uma experiência inesperada: a toalha talvez não tenha aquele toque sedoso típico do produto, mas pode funcionar melhor naquilo que realmente importa — secar o corpo.

Mas, se o vinagre não é amaciante, por que algumas roupas parecem mais macias?

Essa talvez seja a pergunta mais interessante de toda a história.

Se o amaciante foi desenvolvido justamente para deixar os tecidos macios, como explicar que algumas pessoas abandonem o produto, passem a usar vinagre e afirmem que as roupas ficaram até mais agradáveis ao toque?

A resposta é que existem diferentes caminhos para uma roupa parecer macia.

Aquilo que chamamos de maciez não depende apenas do que sentimos ao passar a mão sobre o tecido.

Também percebemos se ele dobra facilmente, se acompanha os movimentos do corpo e se oferece resistência quando o apertamos ou amassamos.

Por isso, uma roupa pode parecer mais macia sem necessariamente ter recebido uma substância que deixe suas fibras mais escorregadias.

Às vezes, o que sentimos como maciez é simplesmente a ausência de algo que estava deixando o tecido rígido.

Quando alguém diz que essas peças ficaram mais macias depois de usar vinagre, pode estar percebendo várias mudanças diferentes.

Resíduos de produtos utilizados na própria lavagem

Alguns componentes do sabão e de outros produtos destinados a limpar as roupas podem reagir com minerais presentes na água e formar depósitos sobre os tecidos. Esses depósitos podem deixá-los ásperos ou rígidos.

Pense numa camiseta que ficou meio dura depois de várias lavagens. Ou naquele lençol que já não tem o mesmo caimento de antes.

O ácido acético do vinagre consegue dissolver determinados depósitos minerais. Assim, quando esses resíduos são a causa do endurecimento do tecido, sua remoção pode melhorar o toque e reduzir a rigidez da roupa.

Talvez o tecido esteja menos rígido porque perdeu parte dos depósitos minerais que se acumulavam sobre as fibras. Talvez determinados resíduos da lavagem tenham diminuído. Ou talvez a diferença venha, principalmente, do fato de a pessoa ter parado de usar amaciante.

O interessante é que isso não vale apenas para toalhas: pode acontecer também com camisetas, lençóis e outras peças.

Imagine um tecido que tenha acumulado resíduos ao longo das lavagens. Dependendo da composição desses resíduos, removê-los pode modificar a maneira como as fibras se movimentam e como o tecido é percebido ao toque.

Nesse caso, a sensação de maciez não viria de uma nova camada depositada sobre as fibras, mas da possível redução de substâncias que estavam ali.

Ou seja, nem tudo o que permanece numa roupa depois de lavada é sujeira. Podem existir resíduos de produtos utilizados na própria lavagem.

Se parte desses resíduos contribuir para a aspereza, sua redução poderá deixar o tecido mais agradável ao toque.

É uma explicação quimicamente plausível, embora ainda faltem estudos que demonstrem quanto esse mecanismo contribui para a maciez percebida quando se usa vinagre doméstico na máquina.

Depósitos deixados pelo próprio amaciante

E existe outra possibilidade igualmente interessante.

Quando alguém substitui o amaciante por vinagre, também deixa de acrescentar ao tecido as substâncias presentes no amaciante. A mudança na sensação das roupas pode resultar dessa retirada, independentemente de qualquer ação adicional do vinagre.

Há ainda um detalhe que a ciência dos tecidos ajuda a compreender: a maciez que sentimos na roupa não depende apenas da superfície das fibras. A forma como elas se aproximam e interagem durante a secagem também influencia a rigidez das roupas.

Quando tocamos uma camiseta ou vestimos uma camisa, não avaliamos apenas se sua superfície é lisa. Também percebemos se o tecido dobra facilmente, se acompanha os movimentos do corpo e se apresenta resistência ao ser manipulado.

Pesquisas sobre percepção ao toque, ao contato com a pele, mostram que características como rigidez, compressibilidade e atrito participam daquilo que chamamos de maciez.

Assim, se a retirada de depósitos deixados pelo amaciante, isto é, deixar uma peça menos rígida, ela poderá ser percebida como mais macia, mesmo sem adquirir o toque típico de um amaciante.

Isso não significa que qualquer roupa lavada com vinagre ficará automaticamente mais limpa ou mais macia.

Mas oferece uma explicação química plausível para uma experiência relatada por alguns usuários: roupas que parecem menos carregadas de resíduos e toalhas que recuperam parte da capacidade de absorção.

O interessante é que, nesse caso, a diferença não estaria em acrescentar uma camada de maciez, mas em ajudar a retirar algo que não deveria permanecer no tecido.

Talvez o segredo do vinagre não esteja no que ele acrescenta às roupas, mas no que pode ajudar a retirar delas.

O que dizem as pessoas que fizeram a troca?

Em abril de 2024, uma publicação na comunidade CleaningTips, do Reddit, chamou atenção justamente por apresentar uma experiência pessoal.

A autora contou que havia usado amaciante durante anos e precisava limpar periodicamente resíduos acumulados em sua máquina. Também percebeu uma película no filtro de fiapos da secadora.

Quando o amaciante estava acabando, resolveu experimentar vinagre.

Segundo seu relato, as roupas continuaram tão macias quanto antes. Ela também percebeu uma melhora no funcionamento da secadora e afirmou que passou a gastar menos eletricidade.

A publicação recebeu centenas de manifestações positivas e abriu espaço para outras experiências.

Em outra discussão da mesma comunidade, participantes debateram justamente a possibilidade de usar vinagre como amaciante. Alguns disseram que preferiam deixar de usar amaciante por causa da sensação de resíduos nas roupas. Outros questionaram se o vinagre realmente produzia algum efeito adicional.

E esse contraste é importante.

Os depoimentos ajudam a explicar por que a prática se espalhou, mas não demonstram que o vinagre seja responsável por todos os resultados relatados.

Aliás, quando alguém deixa de usar amaciante e passa a usar vinagre, duas coisas mudam ao mesmo tempo.

Se a roupa melhora, pode ser difícil saber quanto da diferença veio do vinagre e quanto veio simplesmente da retirada do amaciante.

É uma distinção que faz toda a diferença para interpretar esses relatos.

E por que as roupas geralmente não ficam cheirando a vinagre?

Essa é uma das primeiras dúvidas de quem nunca experimentou a prática.

Afinal, o vinagre tem um cheiro bastante característico. Não seria de esperar que as roupas saíssem da máquina com aquele odor de salada?

A explicação está, em parte, na própria química do ácido acético, substância responsável pelo cheiro do vinagre.

Ele é volátil, ou seja, consegue passar para o ar. Durante a secagem, parte do ácido acético que ainda estiver presente no tecido pode evaporar. Outra parte já terá sido removida com a água durante o enxágue e a centrifugação.

Por isso, roupas lavadas com pequenas quantidades de vinagre diluído podem não conservar seu cheiro característico depois de secas.

Mas há uma ressalva: isso não é uma garantia absoluta. Excesso de produto, enxágue insuficiente ou secagem inadequada podem alterar o resultado.

E existe uma diferença importante entre não sentir cheiro de vinagre e sentir cheiro de perfume: o vinagre não deixa nas roupas aquela fragrância que muita gente associa à sensação de roupa limpa.

Para quem prefere roupas sem perfume, isso pode ser uma vantagem.

Para quem adora o cheiro do amaciante, talvez não seja.

E aquele cheiro desagradável que às vezes fica nas roupas?

Essa é outra razão frequentemente mencionada por quem experimenta vinagre.

O ácido acético pode alterar condições químicas relacionadas a determinados odores. Mas daí a afirmar que o vinagre elimina qualquer mau cheiro existe uma distância considerável.

Odores persistentes podem ter diferentes origens: resíduos de suor, sujeira, lavagem insuficiente, excesso de produtos, secagem demorada ou problemas de manutenção da máquina.

O vinagre não resolve necessariamente nenhuma dessas situações.

Há ainda um achado científico que merece atenção.

Uma pesquisa publicada em 2020, na revista BMC Microbiology, investigou a atividade antimicrobiana do ácido acético em diferentes condições, incluindo uma simulação de lavagem de roupas.

Os pesquisadores encontraram efeitos contra determinados microrganismos em condições experimentais específicas.

Mas isso não significa que acrescentar vinagre doméstico à lavagem comum produza o mesmo resultado.

A concentração do ácido, o tempo de contato e as condições do experimento fazem diferença.

Portanto, o vinagre não deve ser tratado como um desinfetante universal para roupas.

Se uma peça precisa de higienização específica, o correto é utilizar um processo ou produto apropriado.

O vinagre também pode evitar algumas manchas?

Aqui há uma curiosidade que costuma passar despercebida.

Alguns amaciantes podem provocar manchas quando utilizados em excesso, aplicados diretamente sobre os tecidos ou distribuídos de maneira inadequada durante a lavagem.

Ao abandonar o amaciante, a pessoa elimina essa fonte específica de manchas.

Isso não significa que o vinagre seja um tira-manchas universal nem que consiga remover qualquer marca que já esteja na roupa.

São duas coisas diferentes: uma é retirar uma possível causa do problema; outra é utilizar um produto capaz de corrigir o problema depois que ele apareceu.

E essa distinção ajuda a entender por que algumas pessoas relatam roupas com aparência melhor depois de mudar sua rotina de lavagem, mesmo sem que o vinagre seja necessariamente o responsável por toda a diferença.

O vinagre é melhor para o meio ambiente?

Essa parece uma conclusão intuitiva. Afinal, estamos falando de um produto simples, usado em lugar de uma formulação – o amaciante – que pode conter perfumes, corantes e diferentes ingredientes.

Mas a comparação não é tão automática.

O impacto ambiental depende de fatores como a composição dos produtos, as quantidades utilizadas, a fabricação, as embalagens e o descarte.

O ácido acético é biodegradável em condições apropriadas, mas isso, isoladamente, não basta para estabelecer a superioridade ambiental de uma rotina de lavagem.

Também existem diferenças importantes entre as formulações dos amaciantes disponíveis no mercado.

Reduzir o consumo de um produto pode representar uma vantagem em determinadas circunstâncias. Isso, porém, não significa que qualquer uso de vinagre seja necessariamente mais sustentável.

Mas existe um problema: a máquina de lavar

Até aqui, falamos das roupas. Só que existe outra parte dessa história que não pode ser ignorada.

Fabricantes como Whirlpool alertam que a exposição ao vinagre pode prejudicar determinados componentes de máquinas de lavar, especialmente peças de borracha, como vedações e mangueiras.

O risco depende das condições de uso, e os avisos dos fabricantes não significam que toda máquina sofrerá danos ao primeiro contato com vinagre.

Mas também não há fundamento para garantir que o uso frequente seja seguro em qualquer modelo.

Por isso, antes de colocar vinagre na lavadora, vale conferir as orientações do fabricante do aparelho.

E há outro cuidado indispensável: vinagre nunca deve ser misturado com água sanitária à base de cloro. Essa combinação pode liberar gás tóxico.

Afinal, vale a pena trocar o amaciante por vinagre?

A resposta talvez surpreenda quem procura uma competição com um vencedor.

Não existe evidência suficiente para afirmar que o vinagre doméstico seja um substituto universal, eficaz e seguro do amaciante em todas as lavagens.

Mas também seria simplista ignorar as razões pelas quais tantas pessoas deixaram de usar amaciante e ficaram satisfeitas.

Algumas preferem toalhas mais absorventes. Outras não querem perfume. Há quem goste de reduzir a quantidade de produtos utilizados em casa.

E existe uma terceira possibilidade que merece atenção: talvez você descubra que não precisa nem de amaciante nem de vinagre para gostar do resultado das suas roupas.

No fim, a descoberta mais interessante pode não estar na garrafa de vinagre.

Pode estar na percepção de que um produto que parecia indispensável talvez nunca tenha sido tão necessário assim.


Fontes consultadas

Igarashi, Takako; Morita, Naoki; Okamoto, Yoshimasa; Nakamura, Koichi. Elucidation of Softening Mechanism in Rinse Cycle Fabric Softeners. Part 1: Effect of Hydrogen Bonding. Journal of Surfactants and Detergents, 2016.

Igarashi, Takako; e colaboradores. Elucidation of Softening Mechanism in Rinse-Cycle Fabric Softeners. Part 2: Uneven Adsorption—The Key Phenomenon to the Effect of Fabric Softeners. Journal of Surfactants and Detergents, 2016.

Yoshizumi, Kunio; e colaboradores. Characteristics of Water Absorption of Cotton Terry Towel Treated with Household Softeners. Sen’i Gakkaishi, 1993.

American Cleaning Institute. Laundering Problems & Solutions. American Cleaning Institute, 2018.

Agar Cleaning Systems. Laundry Sour. Documentação técnica do fabricante, s.d.

Comunidade r/CleaningTips. Thank you to all who told me to stop using Fabric Softener & replace with Vinegar. Reddit, 2024.

Comunidade r/CleaningTips. White Vinegar as Fabric Softener?. Reddit, 2024.

Zinn, Marc-Kevin; Bockmühl, Dirk P. Did granny know best? Evaluating the antibacterial, antifungal and antiviral efficacy of acetic acid for home care procedures. BMC Microbiology, 2020.

Whirlpool. Should You Clean Your Washing Machine with Vinegar?. Whirlpool, s.d.

Bosch. Descaling the Washing Machine with Vinegar. Bosch Home Appliances, s.d.

Clorox. Washing Clothes with Vinegar to Sanitize Laundry. Clorox, s.d.

Poison Control. No, Vinegar Is Not Always Safe. Poison Control, s.d.


KINDLE UNLIMITED
Milhões de eBooks para você ler onde e quando quiser.
 Junte-se ao Kindle Unlimited na AMAZON.


Você costuma comprar online? Saiba que assinar o AMAZON PRIME pode ser muito vantajoso. Com ele, por uma taxa mensal bem baixa, você terá frete grátis, e isso sem valor mínimo de compra. E mais! Você ganha acesso a ofertas exclusivas e Prime Video, com filmes, séries e esportes ao vivo. Clique aqui para saber mais e testar GRÁTIS por 30 dias.


Receba nossa seleção semanal de notícias e reportagens

As notícias, reportagens e análises que merecem sua atenção, selecionadas pela redação do carolineborja.com.br.

Caroline Borja, phD, divulgadora científica

Caroline Borja é escritora, divulgadora científica e pesquisadora. Farmacêutica, mestre e doutora em Farmacologia pela UNICAMP e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP, dedicou 25 anos à carreira acadêmica, sendo 13 anos na UNICAMP e 12 anos como docente da Universidade de São Paulo (USP) — onde ingressou por concurso —, em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Na USP, lecionou temas relacionados ao envelhecimento humano e à saúde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *